O que dizem os pediatras sobre o sedentarismo infantil
Especialistas do Brasil e do exterior apontam a bicicleta como uma das ferramentas mais simples e eficazes para tirar crianças da inatividade — e reforçam que o envolvimento da família é o que faz o hábito pegar
Uma em cada dez crianças e adolescentes no mundo hoje enfrenta obesidade infantil, e boa parte da culpa recai sobre um vilão silencioso: o tempo excessivo em frente às telas. Os números preocupam pediatras, pesquisadores e organizações de saúde em todo o planeta, que têm se debruçado sobre uma pergunta simples — como devolver o movimento à rotina das crianças? Para muitos especialistas, a resposta começa em duas rodas — e não acontece sem os pais no pedal junto.
O que diz a ciência

A relação entre tempo de tela e sedentarismo infantil é hoje um dos temas mais estudados da pediatria mundial. Um estudo publicado no periódico Pediatric Research*, com mais de 7.400 crianças de 10 a 16 anos na Inglaterra, mostrou que meninos que passavam mais de 4 horas diárias em telas tinham quase metade da chance de estar em boa forma cardiorrespiratória, comparados aos que ficavam menos tempo conectados.
No Brasil, revisões publicadas em periódicos científicos nacionais reforçam esse quadro: o excesso de tempo de tela está associado a alterações metabólicas e cardiometabólicas em crianças e adolescentes, muitas vezes combinado à má qualidade do sono.
Estudos publicados nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia também associam o comportamento sedentário à pressão arterial elevada e à adiposidade em crianças e adolescentes — fatores de risco que podem se converter em doenças cardiovasculares na vida adulta.
A visão de dentro do consultório: telas substituindo o brincar

No Brasil, essa mudança de hábito já é rotina de consultório. O cardiologista pediátrico Gustavo Foronda, do Hospital Israelita Albert Einstein e presidente do Departamento Científico de Cardiologia da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), tem apontado com frequência a relação entre telas, sedentarismo e o aumento de fatores de risco cardiovascular em crianças e adolescentes — inclusive comentando um estudo da UFMG e da Unifesp que mostrou que 81,3% dos adolescentes brasileiros apresentam dois ou mais fatores de risco para doenças crônicas.
“A violência urbana, por exemplo, impacta a atividade física, já que as crianças deixam de brincar na rua, em praças ou parques, e passam a depender de atividades orientadas, como aulas de esporte, ou ser sócias de clubes, e isso não é acessível a todos. O uso de eletrônicos, como celulares, tablets e videogames, é tolerado pelos pais como uma forma de distração e de deixar as crianças mais tranquilas.” — Gustavo Foronda, cardiologista pediátrico do Hospital Israelita Albert Einstein
Do lado ortopédico, a médica Susana Braga, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP) e também do Einstein, reforça que o objetivo de qualquer orientação de saúde infantil não é apenas afastar a doença, mas devolver a criança à possibilidade de se movimentar e brincar livremente — o brincar como medida de sucesso, não como recompensa.
“O objetivo é que essas crianças possam brincar, estudar e seguir seu desenvolvimento com autonomia e qualidade de vida.” — Susana Braga, presidente da SBOP e ortopedista pediátrica do Hospital Israelita Albert Einstein
Especialistas internacionais de referência

Entre os nomes mais citados mundialmente sobre o tema está o pesquisador canadense Mark S. Tremblay, PhD, diretor do grupo de pesquisa Healthy Active Living and Obesity (HALO) no Children’s Hospital of Eastern Ontario (CHEO) Research Institute e professor de Pediatria na Universidade de Ottawa. Com mais de 600 artigos científicos publicados e 130 mil citações no Google Scholar, Tremblay é o principal autor das Canadian 24-Hour Movement Guidelines — diretrizes que integram atividade física, comportamento sedentário e sono em uma única recomendação, hoje referência global adotada por diversos países.
Um estudo recente liderado pelo pesquisador Kianoush Harandian, da Universidade de Montréal, em colaboração com Tremblay, acompanhou 1.668 crianças por uma década e descobriu algo revelador: hábitos formados aos 2 anos e meio de idade — como brincadeiras ativas com os pais e tempo de tela limitado — previram o nível de atividade física da criança dez anos depois, na adolescência. O estudo reforça justamente o ponto que Susana Braga levanta no Brasil: o vínculo entre pais e filhos em torno do movimento é o que sustenta o hábito no longo prazo.
“Quando analisamos os dados, descobrimos que menos de uma em cada dez crianças cumpria naturalmente as três recomendações diárias de movimento: brincar ativamente, telas limitadas e sono suficiente. E ainda assim, esses hábitos precoces importam enormemente.” — Kianoush Harandian, pesquisador da Universidade de Montréal
Já a pesquisadora Amanda E. Staiano, PhD, diretora do Pediatric Obesity and Health Behavior Laboratory do Pennington Biomedical Research Center, nos Estados Unidos, é referência em estudos epidemiológicos sobre atividade física e tempo de tela em crianças pequenas, com pesquisas voltadas a intervenções práticas em creches e centros de educação infantil — incluindo o papel dos pais e educadores como facilitadores da atividade física, e não apenas como fiscais do tempo de tela.
A recomendação oficial para os pais
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — maior e mais antiga entidade pediátrica do país — publica desde 2016 o manual #MenosTelas #MaisSaúde, atualizado em 2024. As diretrizes são claras e organizadas por faixa etária:
• De 0 a 2 anos: nenhuma exposição a telas, mesmo que passivamente;
• De 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão dos pais;
• De 6 a 10 anos: 1 a 2 horas por dia, no máximo, com supervisão;
• De 11 a 18 anos: 2 a 3 horas por dia, evitando “virar a noite” conectado.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) segue na mesma direção. Suas diretrizes, publicadas em 2019, recomendam no máximo 1 hora de tela sedentária por dia para crianças de até 4 anos — e nenhum contato para bebês com menos de 1 ano. A entidade também estabelece a meta de 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa para crianças a partir dos 5 anos.
Por que a bicicleta entra nessa conta
Entre as atividades recomendadas para preencher esse espaço deixado pelas telas, o ciclismo aparece com destaque na literatura acadêmica nacional. Um estudo publicado na Revista Cosmos Acadêmico, da Multivix, analisou o efeito de uma proposta pedagógica de ciclismo aplicada em aulas de Educação Física e concluiu que a prática incentiva a atividade física regular e melhora a qualidade de vida dos estudantes — um hábito que, segundo os autores, tende a se manter até a vida adulta.
A Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), filiada à SBP, reforça a recomendação: acima dos 5 anos, a criança deve acumular 60 minutos diários de atividade moderada a vigorosa, intercalando exercícios aeróbicos — como o pedal — com fortalecimento muscular pelo menos três vezes por semana.
O elo que decide se o hábito pega: a família
Se há um ponto em que pediatras brasileiros e pesquisadores internacionais convergem, é este: nenhuma diretriz funciona sozinha. Especialistas em atividade física infantil — tanto os que atuam em consultório no Brasil quanto os que assinam as grandes diretrizes de movimento no exterior — são unânimes ao afirmar que o fator decisivo não é o equipamento, o esporte ou o app de controle de tela, mas a presença ativa dos pais no dia a dia da criança.
“Participação da família para oferecer oportunidades. Precisa se envolver e fazer junto.”
Essa lógica é exatamente o que o estudo de Kianoush Harandian, da Universidade de Montréal, mediu de forma objetiva: crianças cujos pais se envolviam ativamente em brincadeiras físicas aos 2 anos e meio de idade tinham muito mais chance de manter uma vida ativa dez anos depois. Não bastava a criança ter acesso a espaço ou brinquedo — o que fazia diferença era o adulto participando junto.
Pedalar em família, portanto, não é só uma forma de tirar a criança da tela: é o mecanismo mais estudado para tornar esse hábito permanente. Um passeio de bicicleta aos finais de semana funciona menos como “exercício obrigatório” e mais como o tipo de brincadeira compartilhada que, segundo a ciência, ensina a criança — e o adulto — a se mover pelo resto da vida.
Recomendações práticas para os pais
Com base nas diretrizes da SBP, da OMS e nos estudos e especialistas citados, veja o que pediatras recomendam para reduzir o sedentarismo infantil e reequilibrar o tempo de tela em casa:
1. Respeite os limites de tela por idade — e supervisione sempre o conteúdo, não apenas o tempo;
2. Introduza a bicicleta cedo, preferencialmente com bike de equilíbrio antes das bicicletas com rodinhas, para desenvolver coordenação e confiança motora;
3. Participe, não apenas ofereça — leve a criança para pedalar junto, em vez de apenas providenciar a bicicleta e o espaço; o envolvimento direto dos pais é o fator mais associado à manutenção do hábito no longo prazo;
4. Transforme o pedal em rotina familiar — passeios de bicicleta nos fins de semana criam o hábito e fortalecem vínculos;
5. Desconecte 1 a 2 horas antes de dormir — o excesso de tela à noite prejudica o sono, que é parte essencial do desenvolvimento infantil;
6. Nada de telas durante as refeições, em qualquer idade;
7. Seja exemplo — pais que reduzem seu próprio tempo de tela e se movimentam mais influenciam diretamente o comportamento dos filhos.
Como resume a pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP, a lógica é simples: quanto menos tempo de tela, melhor — e quanto mais movimento compartilhado em família, mais saudável o desenvolvimento infantil, física e emocionalmente.
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